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AMÉRICA SITIADA
Encontro
hemisférico reúne representantes de 27 países
que se posicionam oficialmente contra a política hegemônica
militarista dos Estados Unidos
Por
Maria Luisa Mendonça, de San Cristóbal de las
Casas (México)
O
I Encontro Hemisférico Contra a Militarização
reuniu mais de 900 representantes de 215 organizações
sociais, entre os dias 6 e 9 de maio, em San Cristóbal
de las Casas, México. Participaram organizações
de Honduras, Guatemala, Costa Rica, El Salvador, Nicarágua,
Haití, Porto Rico, Panamá, Cuba, Peru, Equador,
República Dominicana, Brasil, Bolivia, Chile, Argentina,
Colômbia, Canadá, Estados Unidos, Itália,
Inglaterra, Espanha, França, Grécia, Filipinas,
Palestina e Nigéria.
O
tema principal do Encontro foi o poderio econômico e
militar dos Estados Unidos e seu desrespeito a tratados internacionais,
como a Convenção sobre Armas Biológicas,
o Tratado sobre Mísseis Antibalísticos, a Convenção
da ONU sobre Tortura e o Tratado Contra Testes Nucleares,
além de ignorar completamente o direito internacional
com seu conceito de guerra preventiva.
A
professora Ana Esther Ceceña, da Universidade Nacional
do México, observou que, após os atentados de
11 de setembro, o governo dos Estados Unidos procurou
criar um consenso sobre sua superioridade, com o objetivo
de asegurar acesso incondicional `a recursos naturais
estratégicos. Esse controle inclui território
e monopólio do espaço aéreo, através
do desenvolvimento de tecnologia espacial e de comunicação.
Especialistas
mostraram claramente que as intervenções militares
estadunidenses estão diretamente ligadas a interesses
econômicos e ao controle de recursos naturais, principalmente
petróleo, água e biodiversidade. Na América
Latina, as bases e as ocupações militares estão
situadas principalmente na Amazônia, na região
do Plano Puebla Panamá (abrangendo o sul do México
e toda a América Central) e no sul do Continente (na
região da Tríplice Fronteira e na Terra do Fogo).
BASES
MILITARES
Nos
últimos anos, os EUA intensificam sua intervenção
na América Latina através da instalação
de bases militares como no caso de Manta (Equador), Três
Esquinas e Letícia (Colômbia), Iquitos (Peru),
Rainha Beatrix (Aruba) e Hato (Curaçao). Essas bases
complementam o cerco dos EUA no Continente, que também
possui bases militares em Porto Rico (Vieques), Cuba (Guantánamo)
e Honduras (Soto de Cano). Os EUA pretendem ainda construir
bases militares em El Salvador e na Argentina. No Brasil,
o objetivo era controlar a base de Alcântara, mas o
governo Lula tem indicado que irá cancelar o acordo
de Salvaguardas Tecnológicas com os Estados Unidos.
O
acordo estabelece diversas obrigações para o
Brasil e nenhuma para os Estados Unidos, além de ferir
a soberania nacional em diversos aspectos. Por exemplo, Os
EUA poderiam delimitar áreas restritas, onde só
haveria acesso livre para oficiais norte-americanos; o governo
brasileiro seria proibido de verificar o conteúdo dos
materiais recebidos ou enviados pelos EUA e, em caso de acidente,
o governo brasileiro não poderia inspecionar o material
recolhido. Mas a questão fundamental em relação
ao acordo diz respeito a tentativa de expansão do controle
militar dos Estados Unidos na região amazônica.
PLANO
COLÔMBIA
O
economista colombiano Hector Mondragón explicou que,
em preparação para o Plano Colômbia, o
governo concedeu contratos de exploração de
petróleo a empresas norte-americanas em grandes reservas,
como na região de Putumayo, que hoje é controlada
por grupos paramilitares. Ele denunciou os interesses de empresas
multinacionais no Plano Colômbia, como no caso da Phillip
Morris, que hoje controla a produção de café
no país. As políticas de livre comercio
e a destruição do Pacto Mundial do Café,
imposta pelos EUA, destruiram a agricultura colombiana, estimulando
a plantação da folha de coca.
Essas
políticas têm gerado um forte movimento contra
o governo de Alvaro Uribe. Esse ano, as manifestações
de 1 de maio levaram cerca de 200 mil manifestantes `as ruas
de Bogotá. As principais reivindicações
são trabalho e manutenção de direitos.
A dívida externa colombiana consome 82% dos impostos
arrecadados, os quais tiveram um grande aumento com a reforma
tributária que criou o imposto de guerra.
Portanto, o caso colombiano torna evidente a ligação
entre políticas neoliberais e processos de militarização.
Em
Aruba e Curaçao, as bases militares são utilizadas
para garantir que a Shell mantenha a exploração
de grandes reservas de petróleo. No México,
os EUA pretendem forçar a privatização
da indústria petrolera, como condição
para aprovar um tratado migratório com os mexicanos.
REPRESSÃO
NOS ESTADOS UNIDOS
O
Encontro Continental Contra a Militarização
contou com a presença de muitos militantes estadunidenses
que denunciaram a repressão em seu país. Ted
Lewis, da Global Exchange, citou como exemplo a aprovação
do Tratado Patriótico, uma lei que permite
a prisão de imigrantes sem justificativa e sem direito
`a defesa jurídica. Essa lei, com cerca de 1200 páginas,
foi aprovada poucos dias após os atentados de 11 de
setembroo que indica que ela já exitia e que
o governo Bush só estava esperando um bom pretexto
para colocá-la em prática. Ele lembrou ainda
que o governo proibiu que a população de Nova
Yorque se manifestasse contra a guerra no Iraque. Apesar disso,
cerca de 200 mil pessoas saíram às ruas daquela
cidade, nos históricos protestos de 15 de fevereiro.
Representantes
da organização School of the Americas Watch,
que lutam pelo fechamento da Escola das Américas, denunciaram
a repressão da polícia contra manifestantes.
Somente esse ano, 86 pessoas foram presas por protestar contra
o treinamento de militares latino-americanos na chamada Escola
dos Assassinos. Desde o período das ditaduras
militares na América Latina, essa instituição
treinou cerca de 80.000 oficiais, especialmente em práticas
de tortura, espionagem e repressão a movimentos políticos
e sociais.
A
cerimônia de encerramento incluiu uma palestra de Adolfo
Perez Esquivel, militante argentino que recebeu o Prêmio
Nobel da Paz em 1980. Para ele, a dominação
cultural é tão perigosa quanto o domínio
militar, pois assegura a hegemonia do pensamento único,
fazendo com que povos se tornem mercados, cidadãos
se tornem consumidores e relações humanas se
tornem competições mercantis.
Ele
prestou homenagem ao Bispo Samuel Ruiz, que teve um papel
muito importante na defesa das reivindicações
do movimento Zapatista, como exemplo de compromisso,
carinho, resistência, luz e esperança.
E lembrou as inúmeras guerras silenciosas,
como no caso das 35 mil crianças que, a cada dia, morrem
de fome no mundo, em consequência da pobreza e da desigualdade
social. Durante o Encontro, Adolfo Perez Esquivel concedeu
uma entrevista exclusiva a Sem Fronteiras:
SF:
Por que esse Encontro é importante?
É
a primeira oportunidade de refletirmos juntos sobre a militarização
na América Latina. Não é um caso isolado,
mas uma etapa das políticas hegemônicas dos Estados
Unidos, com suas vertentes econômicas, políticas
e culturais, que inclui a ALCA, a dívida externa e
também o controle dos governos através do FMI
e do Banco Mundial. Essa estratégia prevê que
os conflitos sociais devem aumentar. Portanto, em um cenário
de guerra, os inimigos são as organizações
sociais. É uma continuação do que foi
a Doutrina da Segurança Nacional, que não desapareceu.
Hoje o inimigo é o próprio povo, através
da guerra contra o narcotráfico e contra a subversão.
Essa reunião é importante para trocarmos experiências
e construirmos políticas conjuntas.
SF:
Qual a relação entre militarização
e neoliberalismo?
As
empresas norte-americanas se beneficiam das políticas
hegemônicas dos Estados Unidos para anexar as economias
e as indústrias latino-americanas, assim como para
controlar recursos naturais. Isso requer a repressão
social na América Latina, como no caso das Operações
Cabañas na Argentina, onde militares estadunidenses
treinaram soldados latino-americanos. O objetivo é
manter as Forças Armadas latino-americanas subordinadas
aos Estados Unidos, o que significa a perda da soberania e
a recolonização.
SF:
Como esse processo de militarização acontece
na Argentina?
A
Argentina possui grandes recursos energéticos, minas
de ouro e biodiversidade. Uma base norte-americana na Argentina
pode garantir o controle total do Continente, do México
a Terra do Fogo. Além do Canal do Panamá,
os Estados Unidos têm interesse em controlar o Estreito
de Magalhães. Os grandes eixos dessa estratégia
são o Plano Colômbia, Plano Puebla Panamá,
a Tríplice Fronteira e a região da Patagônia.
A base de Manta no Equador, uma das maiores da região,
serve ao Plano Colômbia mas também ao controle
hemisférico. Se os Estados Unidos conseguirem envolver
outros países no conflito da Colômbia, significaria
um outro Vietnã, com conseqüências imprevisíveis.
A pressão dos Estados Unidos para derrubar o governo
de Hugo Chavez na Venezuela também faz parte dessa
estratégia.
SF:
Como o Sr. vê o papel dos governos latino-americanos?
O
domínio dos Estados Unidos não seria possível
sem a cumplicidade de nossos governos. Eles abrem a porta
para que venham nos saquear. Originalmente, as Forças
Armadas tinham como objetivo a libertação dos
povos. Hoje elas reprimem seu próprio povo. Infelizmente,
somente os Estados Unidos têm hoje um projeto para a
América Latina.
SF:
Em que base deveríamos construir a unidade da América
Latina?
É
preciso mudar o conceito de desenvolvimento. Os povos indígenas
não falam em desenvolvimento e sim em equilíbrio
com o planeta. A dominação começa pela
via cultural, não pela economia. É preciso gerar
novos espaços políticos de participação,
de controle socialo que significa uma verdadeira democracia.
Se o povo é soberano e delega seu mandato, os governantes
devem cumpri-lo.
SF:
Que mensagem o Sr. enviaria ao presidente Lula?
Conheço
o companheiro Lula desde o tempo em que ele era dirigente
sindical. O PT ainda não existia. Hoje, eu diria que
as vezes as heranças são pesadas, mas
espero que Lula não se esqueça da participação
popular e da consciência crítica em seu governo.
Ele deve garantir a unidade regional e construir novos espaços
de liberdade.
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