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Armadilhas do mercado de terras
Maria
Luisa Mendonça e *Luciano André Wolff
De
15 a 17 de abril, foi realizado em Washington um seminário
internacional sobre os impactos negativos das políticas
de ''reforma agrária de mercado'', promovidas pelo
Banco Mundial. A ''reforma agrária de mercado'' - denominação
criticada pelas entidades presentes, por não considerarem
que o modelo faça justiça ao termo reforma agrária
- tem por base o fomento da venda de terras por parte dos
latifundiários aos trabalhadores com pouca ou sem terra.
Essa política tem sido implementada pelo Banco Mundial
em cerca de 30 países em desenvolvimento objetivando
''aliviar a pobreza rural''. Os resultados de diversas pesquisas
e experiências em países como Colômbia,
Brasil, África do Sul, Guatemala e Tailândia,
apresentados no seminário, apontaram muitos problemas,
mostrando que esses projetos não aliviam a pobreza
e ainda endividam os camponeses.
Essa política acaba por gerar maior concentração
e beneficiar os grandes proprietários de terras, que
recebem dinheiro vivo por suas áreas mantidas improdutivas,
como reserva de valor. Além disso, as experiências
têm mostrado que os programas de ''reforma agrária
de mercado'' estimulam a corrupção e o clientelismo.
Os
trabalhadores sem terra, desejando realizar seu sonho de acesso
à terra para trabalhar, se comprometem com empréstimos
a juros de mercado. O resultado é um processo de endividamento
que submete os camponeses pobres à desilusão
e expulsão das terras adquiridas.
No
Brasil, essa política tem sido implementada através
de projetos como o Cédula da Terra e o Banco da Terra,
com apoio financeiro e aval político do Banco Mundial.
Esses projetos contrariam o processo constitucional de reforma
agrária, que determina a desapropriação
de terras improdutivas. A Constituição brasileira
estabelece que as terras agrícolas devem cumprir sua
função social, ou seja, produzir alimentos e
cumprir com as leis ambientais e trabalhistas. Caso contrário,
o governo deve desapropriar essas áreas para fins de
reforma agrária e assentamento de famílias sem
terra.
As
políticas do Banco Mundial têm substituído
a reforma agrária constitucional pela compra e venda
de terras. A expansão do mercado de terras acaba em
muitos casos provocando um aquecimento dos preços e,
conseqüentemente, beneficiando os grandes latifundiários.
O
seminário mostrou que em vários países
as políticas de ajuste estrutural, defendidas pelo
Banco Mundial, têm estimulado a privatização
de terras indígenas e de outras comunidades rurais,
aumentando a concentração fundiária.
O processo de criação de mercados de terras
coloca-se nesse contexto mais amplo, criando as condições
para a implantação das políticas de ''reforma
agrária de mercado''.
A
grande semelhança entre os impactos negativos das fórmulas
aplicadas pelo Banco Mundial em diversos países acabou
por gerar um movimento internacional de oposição
a essas políticas. O seminário em Washington
reforçou essa articulação, em defesa
de um modelo sustentável de desenvolvimento e dos direitos
fundamentais das comunidades rurais.
Na
conclusão do seminário, as organizações
sociais presentes em Washington divulgaram um documento com
recomendações ao Banco Mundial, pedindo a suspensão
imediata de suas políticas de reforma agrária
de mercado. Aos Estados nacionais, foram apresentadas propostas
para que realizem programas de redistribuição
da terra por meio da desapropriação, com ampla
participação dos movimentos sociais rurais.
A principal preocupação desses grupos é
garantir o direito à terra aos trabalhadores.
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Jornalista, agrônomo 07/MAI/2002
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