|
Um Tribunal Contra a Impunidade
Letícia
Barqueta e Maria Luisa Mendonça
2
de maio de 2000: Cerca de 1500 trabalhadores rurais sem terra
foram fortemente reprimidos pela polícia na BR-277,
a 5km de Curitiba. Eles estavam em 50 ônibus e pretendiam
fazer uma manifestação pacífica na cidade,
quando foram barrados por policiais militares. Os policiais
obrigaram os sem-terra a saírem dos ônibus e
deitarem na beira da estrada, apontando armas em direção
a suas cabeças e espancando homens, mulheres e crianças.
As pessoas que tentavam fugir ou se defender eram atingidas
por bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha
e algumas de chumbo. Cerca de 180 sem-terra ficaram feridos
e o lavrador Antônio Tavares Pereira foi assassinado
com um tiro no abdômen.
2
de maio de 2001: O Tribunal Internacional dos Crimes do Latifúndio
e da Política Governamental de Violação
dos Direitos Humanos no Paraná considerou o governo
do estado culpado por ação e omissão.
Além de analisar as violações ocorridas
um ano antes na BR-277, o Tribunal incluiu outros casos de
violência contra trabalhadores rurais sem terra, durante
o governo de Jaime Lerner. Desde 1995, a Comissão Pastoral
da Terra registrou, no Paraná, 16 assassinatos de trabalhadores
rurais, 31 tentativas de assassinato, sete casos de tortura,
322 trabalhadores feridos e 470 presos, em 130 ações
de despejo. Todos esses crimes continuam impunes.
Portanto,
o Tribunal Internacional representou principalmente um protesto
contra a impunidade. Os nove jurados - personalidades reconhecidas
no Brasil e no exterior pela defesa dos direitos humanos -
julgaram, de forma simbólica, a violação
do direito à vida, à integridade física
e psíquica, à liberdade de ir e vir, à
liberdade de expressão e manifestação,
à privacidade, à inviolabilidade de domicílio,
à liberdade de imprensa e ao livre exercício
profissional. Outro objetivo do Tribunal foi chamar a atenção
da opinião pública nacional e internacional
sobre violações dos direitos humanos contra
trabalhadores sem terra, não só no Paraná,
mas em todo o país, além de mobilizar a população
em apoio à reforma agrária.
O
Tribunal contou com a presença de 1500 pessoas e foi
organizado pelas seguintes entidades: Comissão Nacional
de Direitos Humanos da OAB, Comissão de Direitos Humanos
da Câmara Federal, Fórum Nacional contra a Violência
no Campo, Fórum Nacional pela Reforma Agrária
e Justiça no Campo, Rede Nacional de Advogados e Advogadas
Populares, Centro de Justiça Global, Associação
Direito e Cidadania, Food First Information & Action Network
(FIAN), Global Exchange, Dominicans for Justice and Peace,
Movimento Nacional de Direitos Humanos e Fórum Paranaense
de Direitos Humanos.
O
presidente da Comissão de Direitos Humanos da Organização
dos Estados Americanos (OEA), Dr. Hélio Bicudo, presidiu
o Tribunal e a acusação ficou a cargo de um
dos mais importantes juristas argentinos, Dr. Eugênio
Raúl Zaffaroni, diretor do Departamento de Direito
Penal e Criminologia da faculdade de Direito e Ciências
Sociais da Universidade de Buenos Aires.
O
júri foi composto por Adolfo Pérez Esquivel,
prêmio Nobel da Paz e diretor do Serviço Paz
e Justiça na Argentina; Dom Moacir Grechi, Arcebispo
Metropolitano de Porto Velho; Heloísa Helena Lima de
Moraes Carvalho, Senadora por Alagoas; James Petras, professor
de Ética e Política na Universidade de Binghamton
nos Estados Unidos; Koen De Feyter, professor de Direito Internacional
na Universidade de Maastrich, na Bélgica; Marcelo Lavenere
Machado, advogado e ex-presidente do Conselho Federal da Ordem
dos Advogados do Brasil; Rui Portanova, Desembargador do Tribunal
de Justiça do Rio Grande do Sul; Salete Maria Polita
Maccalóz, Juíza Titular da 7ª Vara Federal
Cível do Rio de Janeiro e Sérgio Yahni, filósofo
e diretor do Centro Alternativo de Informação
Palestino-Israelense.
Apesar
da OAB ter indicado um advogado para fazer a defesa do governo,
o governador Jaime Lerner se recusou a aceitar a representação
e enviou uma carta à presidência do Tribunal,
criticando a realização do evento. A carta foi
considerada pelos jurados como um ato de confissão
do governador que, de forma autoritária, questionava
a legitimidade de um evento de cunho simbólico, organizado
em resposta à situação de injustiça
e desigualdade no meio rural. No dia seguinte ao Tribunal,
o governo do estado publicou material publicitário
na primeira página dos mais importantes jornais do
Paraná, afirmando que não aceitava o "Tribunal
de Exceção".
Em
resposta a essa afirmação, o advogado Eugênio
Zaffaroni respondeu: "Todo julgamento é um ato
cênico. A questão é quem monta o palco.
Na grande maioria das vezes quem monta o palco é o
poder. E pouca vezes, como essa, quem monta o palco é
o povo. Por isso o governador Jaime Lerner não quis
vir até este Tribunal". A postura do governador
foi também fortemente criticada pelos jurados. A juíza
carioca Salete Maria Polita Maccalóz observou que,
"se é este um Tribunal de exceção,
é porque ele é livre e soberano, porque aqui
estão pessoas movidas pelo desejo de justiça.
E que a exceção de hoje seja um dia a regra.
E que esta condenação seja política e
definitiva", concluiu.
O
Tribunal foi marcado por muitos momentos de emoção,
principalmente para o grande número de trabalhadores
sem terra presentes, para quem o sistema judiciário
formal nunca representou mecanismo efetivo de justiça.
Referindo-se a esse público, Adolfo Perez Esquivel
observou: "Hoje foi um dia em que escutamos as vítimas
e aqueles que lutam pela vida e pela dignidade. O governador
não está aqui por medo: medo de enfrentar a
verdade. Ele se confunde permanentemente: o governo é
que deve servir ao povo e não o contrário".
A
apresentação de diversas testemunhas descrevendo
situações de repressão contra trabalhadores
sem terra demonstrou que, desde o início de seu governo,
Jaime Lerner tem agido em defesa dos latifundiários.
Em maio de 1999, a Secretaria de Segurança do Paraná
iniciou uma série de despejos em acampamentos de famílias
sem terra, utilizando grupos de elite da Polícia Militar,
como o setor Anti-Seqüestro, o Grupo Águia e os
Grupos de Operações Especiais (GOE e COPE).
Somente na região de Querência do Norte, a PM
tem realizado dezenas de despejos, onde foram registrados
casos de tortura, espancamento e prisões arbitrárias.
Esses despejos normalmente ocorrem de madrugada (o que é
proibido por lei), e os policiais costumam estar encapuzados
e sem tarjas de identificação.
Em
um dos depoimentos mais contundentes do Tribunal, Valdecir
Bordignon, membro da Direção Estadual do MST,
revelou como a polícia pratica atos de tortura contra
trabalhadores rurais: "Fui algemado e, por cerca de duas
horas e meia, a tortura consistiu em afogamento, enforcamento,
espancamento, tiraram minha roupa e ameaçaram me estuprar
com cana-de-açúcar. Depois me mandaram correr
para que pudessem me matar - eu não corri. Fiquei de
joelhos em frente a um monte de esterco, encostaram uma faca
no meu pescoço e me fizeram comer quase meio quilo
de esterco. Depois me levaram até a viatura onde estavam
os outros presos. Quem nos torturou foi o Grupo de Operações
Especiais e a P2 (polícia secreta militar)".
O
Tribunal revelou também que o governo do Paraná
tem enviado policiais para serem treinados em Israel. Esse
fato foi destacado pelo jurado Sérgio Yhani: "No
Paraná, a Polícia Militar é formada nas
mesmas escolas de repressão e alia-se a quadrilhas
ilegais do exército de Israel. Por isso, Lerner não
é só um inimigo do povo brasileiro, mas de toda
a humanidade". Um vídeo documentando o treinamento
da PM foi entregue à Comissão Pastoral da Terra
por um policial do Paraná, que chegou a receber ameaças
de morte e encontra-se sob proteção, através
do Programa de Segurança à Testemunhas. Durante
o Tribunal, o vídeo foi analisado pelo Major Luis Fernando
de Almeida, da PM de Sergipe, que concluiu: "Esse é
um treinamento visivelmente voltado para uma ação
de guerra, onde os soldados passam a ver os sem-terra como
inimigos."
Em
depoimento ao Tribunal, o jornalista Alexandre Sanchez também
descreveu a atuação repressiva da polícia.
Em 4 de setembro de 1998, quando tentavam cobrir uma desocupação
na fazenda Cachoeira, o jornalista e um fotógrafo foram
barrados e algemados, de madrugada, por quatro policiais encapuzados
e sem identificação. "Tivemos que ficar
sentados, um de costas para o outro, sem nos mexer, durante
duas horas. Nem tossir eu podia, porque me mandavam engolir
a tosse. Chovia e fazia muito frio", contou Sanchez.
O jornalista e o fotógrafo só foram liberados
de manhã, quando o despejo já havia terminado.
Esse
testemunho foi importante, pois a polícia do Paraná
costuma impedir a presença de jornalistas durante os
despejos. Dessa forma, o governo esconde suas práticas
repressivas e tenta manter uma imagem democrática para
a opinião pública. No sentido de desfazer essa
imagem, os organizadores do Tribunal divulgaram mensagens
de apoio de personalidades nacionais e internacionais. O professor
Noam Chomsky enviou a seguinte nota: "As realizações
do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Brasil,
desde a queda da ditadura militar, têm sido verdadeiramente
inspiradoras, não só por resgatar a luta pelos
direitos dos excluídos em um país com grandes
riquezas e uma impressionante concentração de
renda e de terra, mas também na construção
do alicerce para uma sociedade mais produtiva e justa. Em
sua trajetória de dedicação e trabalho
impressionantes, eles têm enfrentado, e corajosamente
suportando, severa e brutal repressão, principalmente
no estado do Paraná. Estou seguro que, assim como eu,
muitas pessoas no Brasil e no exterior, esperam e acreditam
no trabalho do Tribunal, na condução de uma
ampla investigação dos casos e um forte apoio
à justiça e aos direitos humanos."
O
Tribunal recebeu dezenas de cartas de apoio, entre elas, mensagens
dos escritores José Saramago e Eduardo Galeano, que
afirmou: "O menosprezo à produção
e ao trabalho é uma das evidências de que o mundo
está de pernas para o ar. E quando se castiga com pena
de cárcere ou morte os camponeses que querem trabalhar,
como se querer trabalhar fosse grave delito, esse menosprezo
chega ao escândalo. O Tribunal Internacional, que se
ocupará dos crimes contra os camponeses no Paraná,
ajudará o Brasil e o mundo, que tão ao avesso
estão andando, a caminhar com os pés na terra."
O
cantor e compositor Chico Buarque também expressou
seu apoio, através da seguinte mensagem: "Impossibilitado
de comparecer a esse Tribunal, faço questão
de reafirmar minha solidariedade aos trabalhadores rurais
sem terra, vítimas da repressão governamental,
da hostilidade da mídia, do atraso, da burrice, da
corrupção, da perpetuação de privilégios
e da má distribuição de riquezas, essa
vergonha de todos nós, brasileiros".
O
Tribunal foi encerrado com a leitura da sentença pelo
Dr. Hélio Bicudo, que anunciou as seguintes conclusões:
"1º) Que o governo do Estado do Paraná tem
atuado de forma a impedir a reforma agrária, que a
Constituição da República impõe,
mantendo intocado o sistema fundiário que pune o trabalhador
da terra; 2º) Que o Poder Judiciário deste Estado,
mediante a concessão de liminares sem o aprofundamento
do exame da questão social envolvida, tem se aliado
às forças reacionárias do latifúndio;
3º) Que a Polícia Militar do Estado do Paraná,
no cumprimento de determinações do governo local,
ou atuando como verdadeiro poder paralelo, é diretamente
responsável pelas violações dos direitos
humanos descritas neste Tribunal Internacional."
A
sentença foi comemorada por centenas de pessoas que
lotaram o Teatro da Reitoria da Universidade Federal do Paraná
para assistir o Tribunal. Em clima de festa, emoção
e lágrimas-um ano após testemunharem o assassinato
de Antonio Tavares-os trabalhadores rurais cantavam, "Esse
é o nosso país, essa é a nossa bandeira.
É por amor a essa pátria Brasil, que a gente
segue em fileira." O coro do público combinava
com a resposta final do Dr. Zaffaroni ao governador Jaime
Lerner, lembrando uma citação de Castro Alves:
"A praça é do povo, como o céu é
do condor."
Letícia
Barqueta é coordenadora de comunicação
do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Maria
Luisa Mendonça é diretora do Centro de Justiça
Global.
Voltar
|