|
Novo Impasse na Organização Mundial
do Comércio
Por
Maria Luisa Medonça
A
próxima Cúpula Ministerial da Organização
Mundial do Comércio (OMC), que será realizada
em Cancún, México, de 9 a 13 de setembro, deve
manter os impasses ocorridos nas reuniões de Seattle
em 1999, e de Doha em 2001. Os temas mais polêmicos
são propriedade intelectual, agricultura e tratamento
diferenciado para os chamados países em desenvolvimento.
Prevendo
dificuldades no âmbito das negociações
multilaterais, o governo Bush utiliza acordos bilaterais e
regionais, como a ALCA (Área de Livre Comércio
das Américas), para impor sua agenda. A fórmula
é a mesma utilizada no Conselho de Segurança
da ONU: os EUA fazem a cena da negociação multilateral,
mas se suas posições não são aceitas,
seguem rumo próprio. Seus principais interesses são
manter o dólar como referência mundial, garantir
controle total sobre o Fundo Monetário Internacional
e o Banco mundial, monopolizar os processos de privatização
em outros países e manter seu protecionismo comercial.
A chamada Doutrina Bush inclui o fortalecimento
do Estado como extensão da indústria bélica.
De
acordo com essa estratégia, os países latino-americanos
são utilizados como massa de manobra para
forçar a abertura dos mercados europeus. Nesse sentido,
a ALCA, os acordos bilaterais ou um acordo com o Mercosul
(chamado de 4 mais 1) são elementos essenciais para
que os Estados Unidos garantam a aprovação de
suas propostas na OMC. Para isso, o governo Bush joga todas
as suas fichas: acelera um acordo bilateral com o Chile, aposta
na anexação do Mercosul e procura evitar o adiamento
das negociações da ALCA.
Em
recente visita ao México, o ex-presidente Bush pai
negociou a antecipação da próxima reunião
de cúpula presidencial da ALCA, que estava prevista
para março de 2004. A previsão agora é
de que a reunião aconteça no México,
em dezembro de 2003. Os Estados Unidos decidiram amenizar
suas críticas e possíveis retaliações
ao Chile e ao México, por votarem contra a resolução
da ONU sobre a invasão ao Iraque, em troca de favores
nas negociações comerciais.
No
âmbito da OMC, a União Européia e os Estados
Unidos formam dois pólos de poder, com maior possibilidade
de confronto, além da pressão dos chamados grandes
mercados do Sul, como Brasil, Índia, África
do Sul, os chamados Tigres Asiáticos e,
mais recentemente, a China.
Em
relação ao acordo sobre propriedade intelectual,
países como Brasil e África do Sul buscam garantir
seu direito de fabricar medicamentos genéricos. Essa
questão tem sido debatida desde que os Estados Unidos
processaram o Brasil por fornecer remédios genéricos
para o tratamento do vírus HIV. A vitória brasileira
nesse caso abriu um importante precedente contra as regras
de patente na OMC. Mas, atualmente, os Estados Unidos se aliaram
a Índia para evitar a liberação
dos genéricos. A proposta estadunidense só inclui
a quebra de patentes em casos de crise de saúde pública
e limita a lista de medicamentos para o tratamento da AIDS,
da malária e da tuberculose.
Nas
negociações sobre agricultura, os governos do
Brasil e do Uruguai apoiam a pressão dos Estados Unidos
sobre a União Européia para forçar cortes
mais severos em tarifas e subsídios. Nesse caso, a
Índia, a Tailândia e o Japão são
os principais aliados dos países europeus, que propõem
um prazo mais longo para a abertura de seus mercados. Essas
diferenças paralisaram as negociações
sobre agricultura e causaram o adiamento do prazo para a próxima
etapa, que venceu em março.
Diante
do fracasso nas negociações, a OMC já
descarta a apresentação de uma declaração
ao final da reunião de Cancún, como deveria
ser de praxe. Essa declaração deve ser substituída
por um simples comunicado, que serviria como instrumento de
propaganda para a opinião pública, anunciando
os supostos progressos nas negociações.
Por
outro lado, muitos analistas estimam que os Estados Unidos
não poderão manter sua política unilateral
por muito tempo e prevêem uma crise de super-extensão
(em termos militares) ou de super-produção
(em termos econômicos). No campo político, a
oposição aos EUA cresce entre as sociedades
de todo o mundo, além da crise entre os países
membros da OTAN.
Durante
os dias da reunião da OMC em Cancún, estão
previstas grandes mobilizações contra o imperialismo
e o neoliberalismo, coordenadas entre movimentos sociais nas
Américas, Europa e Ásia. Essa jornada internacional
de protestos terá início com o Grito dos Excluídos
no Brasil, dia 7 de setembro.
Voltar
|