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A contra-reforma agrária do Banco mundial
Por
Marcelo Resende e Maria Luisa Medonça
O
Banco Mundial está comemorando seus 60 anos. Ao mesmo
tempo, movimentos sociais em todo o mundo organizam protestos
contra os impactos das políticas e da ideologia dessa
instituição, que promove a expansão do
capitalismo.
O
Banco determina a concepção de desenvolvimento
e as políticas econômicas dos países periféricos,
obrigando-os a comprometer seus orçamentos com projetos
que beneficiam o grande capital. Sob o pretexto de "ajuda
econômica", os programas do Banco Mundial exercem
forte impacto na dívida externa, além de estabelecerem
uma contrapartida dos governos para financiamentos de seus
projetos.
As
prioridades do Banco Mundial são determinadas principalmente
pelo governo dos Estados Unidos, através do Departamento
de Estado, que elabora suas políticas, tem prerrogativa
de veto e indica o presidente da entidade, em geral um membro
do setor financeiro. De acordo com o "Consenso de Washington",
a ideologia do Banco se baseia na lógica do Estado
mínimo.
Essa
política tem se refletido no meio rural, onde o Banco
Mundial concentra seus projetos, promovendo a privatização
do território através das regras do mercado.
De acordo com essa concepção, os camponeses
devem buscar a "eficiência" nos moldes de
um modelo integrado ao agronegócio.
Nas
últimas décadas, foi construída em diversas
partes do mundo a idéia de que o território
rural não era significativo para o desenvolvimento.
Os processos de êxodo rural se baseiam na imagem dos
centros urbanos como os principais geradores de renda e de
oportunidades econômicas.
Porém,
as maiores regiões concentradoras de recursos naturais-como
água, terra, minério e biodiversidade-estão
no meio rural e passaram a ser o centro das políticas
de agências financeiras multilaterais, especialmente
do Banco Mundial. Não é aleatório que,
hoje, os principais projetos do Banco estejam voltados para
o campo.
No
Brasil, a ideologia do Banco passou a ter maior impacto no
governo FHC, que estabeleceu uma política agrária
denominada "Novo Mundo Rural", centrada basicamente
em três princípios: (1) o assentamento de famílias
sem terra enquanto uma política social compensatória;
(2) a "estadualização" dos projetos
de assentamento, repassando responsabilidades inerentes à
União para estados e municípios; (3) a substituição
do instrumento constitucional de desapropriação
pela propaganda do "mercado de terras", o que significa
a compra e venda negociadas da terra.
Durante o governo FHC, o Banco Mundial iniciou três
programas que inauguravam uma trajetória de acesso
à terra e uma concepção de desenvolvimento
rural: Cédula da Terra, Banco da Terra e Credito Fundiário
de Combate à Pobreza. Esses programas beneficiam o
latifúndio improdutivo com o pagamento à vista
da terra, com a aquisição de terras devolutas,
muitas de má qualidade e com preço inflacionado.
As associações criadas para a compra das áreas
são muitas vezes organizadas pelos próprios
latifundiários, sendo que diversas terras adquiridas
poderiam ser passíveis de desapropriação.
Por
outro lado, as condições desses projetos impossibilitam
o pagamento dos empréstimos pelos trabalhadores rurais
e inviabilizam a produção até mesmo para
a subsistência das famílias.
Com
o início do governo Lula, o conjunto dos atores sociais
do campo depositaram suas esperanças na reversão
desse processo. A expectativa era de que a reforma agrária
estaria no centro da agenda política, como uma forma
importante de geração de empregos, de garantia
da soberania alimentar e como base de um novo modelo de desenvolvimento.
Ao
contrário, o que assistimos foi a continuidade das
políticas do Banco Mundial para o meio rural. Em novembro
de 2003, o Ministério de Desenvolvimento Agrário
anunciou o "Plano Nacional de Reforma Agrária:
Paz, Produção e Qualidade de Vida no Meio Rural".
Uma das principais metas do plano, com a previsão de
atingir 130.000 famílias, é a continuidade do
programa de Crédito Fundiário de Combate à
Pobreza Rural, que segue a lógica do "mercado
de terras". Esse projeto enfraquece o Estado nas suas
atribuições, concorre com os instrumentos e
recursos públicos da reforma agrária baseada
na função social da terra e legitima as oligarquias
rurais.
Outra
meta do plano, que visa facilitar a implementação
do "mercado de terras", é o cadastramento
e georeferenciamento do território nacional, com a
regularização de 2,2 milhões de imóveis
rurais e a titulação de 500.000 posseiros. Esse
programa acaba com o conceito de terras públicas e
comunitárias e pode contribuir com o aumento da concentração
fundiária. Através da venda das posses, a titulação
pode beneficiar latifundiários e grileiros, além
de fortalecer os governos estaduais na concessão de
terras públicas e devolutas para madeireros e grandes
empresas agrícolas. Na região amazônica
e no cerrado já se verifica a expansão da monocultura
da soja, que pode ser facilitada pela privatização
das áreas georeferenciadas. O projeto permite ainda
que o Banco Mundial tenha acesso a dados estratégicos
sobre a malha fundiária brasileira.
Apesar
do Plano Nacional de Reforma Agrária dar prioridade
às políticas do Banco Mundial, as organizações
sociais esperam que o governo Lula cumpra seu compromisso
de realização de uma ampla reforma agrária
nos moldes constitucionais. Para isso, algumas das medidas
necessárias seriam a revogação da medida
provisória que impede a desapropriação
de terras ocupadas, o estabelecimento do limite máximo
das propriedades no Brasil e a desapropriação
de todos os imóveis que não cumprem sua função
social.
Em
relação à proposta de georeferenciamento
do território rural, seria mais fácil e menos
oneroso para o Estado estabelecer um prazo para que todos
os latifundiários apresentassem o laudo de produtividade,
o registro do imóvel e a área georeferenciada.
Dessa forma, o ônus da prova seria invertido e passaria
a ser de responsabilidade dos proprietários.
O
território rural brasileiro possui uma imensa diversidade
cultural e social, que inclui comunidades de acampados e assentados
de reforma agrária, assalariados rurais, produtores
familiares (parceiros, meeiros, posseiros e arrendatários),
proprietários rurais minifundistas, populações
tradicionais (ribeirinhas, pescadores artesanais, quilombolas),
garimpeiros, povos indígenas, atingidos por barragens,
comunidades extrativistas (quebradeiras de coco, seringueiros),
entre outros.
Neste
contexto, é incompreensível que a responsabilidade
pela formulação de políticas para o campo,
incluindo o uso e a ocupação do território,
seja delegada a uma instituição financeira internacional
como o Banco Mundial. É necessário que o país
possua políticas públicas compatíveis
com a complexidade das demandas históricas, das experiências
e formulações dos movimentos sociais protagonistas
deste território, que lutam pela democratização
da terra e por soberania.
Marcelo Resende é geógrafo, ex-presidente do
Incra (Institito Nacional de Colonização e Reforma
Agrária) e membro da Rede Social de Justiça
e Direitos Humanos.
Maria
Luisa Mendonça é jornalista e membro da Rede
Social de Justiça e Direitos Humanos.
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