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As
últimas cartadas de Bush
Por
Maria Luisa Mendonça
A proximidade
das eleições presidenciais nos Estados Unidos e a baixa
popularidade do governo Bush, aliadas à crise econômica e a
crescentes críticas à sua política de guerra, parecem gerar
não um recuo, mas a garantia de que, independente do
resultado eleitoral, algumas cartas já estarão marcadas na
política externa.
O
governo Bush pretende garantir um aumento de 70 bilhões de dólares
no orçamento militar para o ano fiscal de
2008 a
2009, que começa dia 1 de outubro, somente para financiar ações
no Iraque e Afeganistão. Desde 2001, os gastos militares
nestes países são estimados em cerca de 800 bilhões de dólares.
Na
América Latina, os Estados Unidos retomam atividades
militares, como a chamada operação UNITAS—um treinamento
naval no território costeiro do Brasil e da Argentina. Esta
mega-operação, iniciada dia 5 de maio, inclui o porta-aviões
nuclear George Washington, com capacidade para transportar até
10 bombas nucleares.
A partir de 1 de julho de 2008, será reativada também a
Quarta Frota, uma unidade militar naval dos Estados Unidos que
irá atuar no Caribe, na América Central e na América do
Sul, em uma região que abrange mais de 30 países. Diversos
esquadrões poderão atuar em oceanos, no litoral, em regiões
costeiras ou fluviais.
A
Quarta Frota foi criada em 1943, durante a Segunda Guerra
Mundial, para patrulhar o Atlântico Sul, e esteve desativada
desde
1950. A
atual versão terá equipamento militar de grande porte,
contendo armas nucleares. As operações, dirigidas a partir
da Flórida, estarão sob o comando da Marinha norte-americana
e do chamado Comando Sul, uma unidade do Pentágono que atua
na América Latina e Caribe. De acordo com comunicados
oficiais do Pentágono, o objetivo é “combater o terrorismo
e atividades ilícitas como o narcotráfico”, além de
“enviar uma mensagem à Venezuela e a toda a região”.
A
ofensiva militar estadunidense condiz com sua política de
desestabilização da região, que inclui o apoio à invasão
do território equatoriano pela Colômbia em março, e à
campanha da direita separatista na Bolívia para derrubar o
presidente Evo Morales. Estas ações têm caráter político,
visando desestabilizar os governos da Venezuela, Equador e Bolívia,
mas, principalmente, buscam garantir controle de recursos
energéticos, como petróleo e gás natural.
Estes
fatos não são novos. Difícil é explicar a posição dos
governos do Brasil e da Argentina, que participam de
treinamentos e autorizam a ação militar dos Estados Unidos
em suas águas territoriais. E não há ingenuidade nesses
acordos; o caráter repressivo dessa política é claro. Além
disso, há outras frentes de colaboração militar com os
Estados Unidos, como no caso da ocupação do Haiti.
Atualmente, o governo brasileiro busca aprovação do
Congresso para aumentar sua infra-estrutura e seu efetivo
militar no Haiti, que chegaria a 1.300 soldados.
As
operações militares dos EUA na região estão combinadas com
missões de espionagem, principalmente de mapeamento de
recursos estratégicos. A preocupação central do Pentágono
é garantir controle de fontes de energia e minério,
principalmente petróleo, gás natural, urânio, cobre e
cobalto, em um processo de crescente demanda e escassez. Ao
mesmo tempo, a expansão da produção de agroenergia impõe
uma pressão cada vez maior pelo controle de bens naturais,
como terra e água. Este cenário agrava a instabilidade econômica
mundial, pois leva a um aumento crescente nos preços de
produtos essenciais, como alimentos.
A
estratégia de mapeamento de recursos naturais se expande para
territórios aparentemente “sem importância” geopolítica.
Na África, o Pentágono pretende formar o Comando
Africano—uma nova versão do Comando Central, criado pelo
então presidente Ronald Reagan nos anos 80, para garantir
controle do petróleo no Golfo Pérsico. Um dos responsáveis
pela operação, Almirante Robert Moeller, declarou que a “África
possui importância geoestratégica crescente”.
Ao
mesmo tempo, regiões tradicionalmente controladas, como o Atlântico
Norte, o Mar Mediterrâneo e o Noroeste do Oceano Pacífico
devem ganhar reforço militar. Em fevereiro, o governo Bush
solicitou ao Congresso a aprovação de orçamento adicional
para a construção de novas armas nucleares marítimas,
navios de guerra e submarinos.
A
nova face da Doutrina de Segurança Nacional dos Estados
Unidos possui duas características: a expansão de operações
que garantam “segurança marítima”, com o objetivo de
controlar rotas estratégicas de comércio, e o monitoramento
territorial. Estas ações visam garantir segurança para
empresas estadunidenses, além de mega-projetos de
infra-estrutura, com o objetivo de monopolizar territórios e
bens naturais.
No
Brasil, a idéia de “desenvolvimento” baseada em grandes
projetos energéticos e de mineração está em consonância
com essa política. Grandes empresas e latifundiários avançam
rapidamente, tanto na Amazônia quanto em áreas vistas
anteriormente como “inóspitas”, como o cerrado e o semi-árido.
Por exemplo, a insistência do governo em realizar a transposição
do rio São Francisco entra nessa lógica, pois ao contrário
do que diz a propaganda oficial, a região semi-árida é rica
em minerais, biodiversidade e água. Nesse contexto, aumenta o
risco de repressão a movimentos sociais que defendem sua
autodeterminação e o controle de seus territórios.
Maria
Luisa Mendonça é jornalista e coordenadora da Rede Social de
Justiça e Direitos Humanos
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