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A
Vitória dos Povos na OMC
Maria
Luisa Mendonça
Apesar
da insistência de alguns países em salvar as negociações
da chamada Rodada de Doha, na Organização Mundial do Comércio
(OMC), não foi possível chegar a um acordo. A última
tentativa ocorreu dia 24 de julho em Genebra, quando o próprio
diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, recomendou a suspensão das
negociações. O ministro do Comércio da Índia, Kamal Nath,
foi mais enfático ao declarar que a rodada de Doha “está
entre a terapia intensiva e o crematório”.
Esta
fase das negociações teve início em 2001, na cidade de Doha,
capital do Catar, e deveria ser concluída em 2004. Porém,
mesmo antes desse período, a OMC já sofria de uma falta de
legitimidade praticamente crônica. Este tipo de impasse vem
ocorrendo desde o fracasso da Rodada do Milênio, marcada por
grandes protestos em Seattle (EUA), em novembro de 1999.
Depois
de Seattle, a OMC teve dificuldades até mesmo para encontrar
um lugar ‘seguro’ para suas reuniões, diante das grandes
mobilizações da sociedade. Por essa razão, a cúpula
ministerial de 2001 foi realizada no Catar, um pequeno país
no Golfo Pérsico, onde os protestos poderiam ser facilmente
reprimidos.
Em
2003, o resultado da reunião ministerial da OMC em Cancun, México,
foi considerado um fracasso por setores conservadores e um
sucesso por movimentos sociais.
O lema das organizações que prepararam os protestos
era “tirar a OMC dos trilhos”—o que realmente ocorreu.
Em
todas as situações de impasse na OMC, verificam-se os mesmos
motivos. Os países industrializados não aceitam regras
justas e os países periféricos resistem em pontos estratégicos
da negociação. Outro elemento fundamental é a visibilidade
dos movimentos de oposição à OMC, que além das mobilizações
também produzem estudos críticos sobre seus impactos.
Desde
o início das negociações da Rodada do Uruguai, em 1995, a
OMC tem funcionado como um poder legislativo global, com o
objetivo de favorecer grandes empresas através da imposição
de uma série de regras para a abertura de mercados, em
detrimento de direitos fundamentais como trabalho, saúde,
educação, proteção ao meio-ambiente e soberania alimentar.
Muitas
políticas propostas no âmbito da OMC têm sido implementadas
através de acordos comerciais bilaterais ou regionais e de
medidas impostas por instituições financeiras multilaterais
como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Porém,
o avanço da Rodada de Doha poderia significar a perpetuação
e o aprofundamento de políticas que dificultam cada vez mais
a habilidade dos países optarem por um modelo de
desenvolvimento baseado nos interesses nacionais e na
autodeterminação dos povos. Apesar do discurso sobre
“desenvolvimento”, as políticas defendidas no âmbito da
OMC baseiam-se na desregulamentação de setores estratégicos
que, ao longo da história, garantiram o bem estar de muitas
sociedades.
O
fracasso da Rodada de Doha deve servir para desmistificar
algumas características da OMC. Uma delas é a própria idéia
da OMC como instituição que promove o “livre comércio”.
Na verdade, o principal papel da OMC é estabelecer mecanismos
de controle do mercado mundial, através da imposição de
regras restritas que podem inviabilizar políticas nacionais
de desenvolvimento, sejam agrícolas ou industriais.
Outro
mito é o suposto caráter multilateral da OMC. Diante da
recente suspensão das negociações, o diretor-geral da OMC,
Pascal Lamy, afirmou que "Perdemos uma oportunidade muito
importante de mostrar que o multilateralismo funciona".
Mas,
na prática, poucos dos 149 países membros da OMC participam
efetivamente das negociações. A maioria dos governos não
tem condições de manter representantes em Genebra, onde está
localizada a sede da OMC. Além disso, existem outros
mecanismos de exclusão, como a criação do grupo de países
“mais interessados” ou G6, que realiza reuniões fechadas
para tentar impor suas posições. Participam deste grupo
Estados Unidos, União Européia, Japão, Austrália, Brasil e
Índia.
Sob
o lema do “livre comércio”, a OMC busca interferir em
questões muito mais amplas do que negociações comerciais.
Seus acordos incluem a imposição de leis de patente ou
“propriedade intelectual” que, entre outras coisas,
dificultam o acesso a medicamentos para as populações mais
empobrecidas, e favorecem o controle de sementes e
biotecnologia por grandes empresas. Os acordos sobre “serviços”
defendidos na OMC buscam privatizar direitos básicos como saúde,
educação e previdência, além de promover o monopólio
privado de setores estratégicos como transporte, correios, água,
energia e telecomunicações.
O
debate na OMC sobre redução de tarifas de produtos não-agrícolas
exclui um elemento importante. Na verdade, para muitos países
não-industrializados, tarifas de importação significam
fontes importantes de recursos, pois funcionam como impostos
cobrados a empresas estrangeiras pelos lucros obtidos nestes
mercados. Muitas vezes, estas tarifas representam a maior
fonte de investimento destes países em infraestrutura e serviços
essenciais. Em relação aos países caracterizados como
“emergentes”, ou com alguma estrutura industrial
significativa, a proposta de redução de tarifas discutida na
OMC pode significar a inviabilidade da continuidade de uma
estratégia de desenvolvimento deste setor.
Apesar
a difusão constante de diversos “mitos”, a OMC segue
enfrentando uma grave crise de credibilidade. Afinal, só há
duas possibilidades dos governos chegarem a um acordo: (1) se
os países “centrais”, como Estados Unidos e União Européia,
abdicassem da proteção de sua indústria, sua agricultura e
sua economia; ou (2) se os países “periféricos”
aceitassem as imposições da OMC para abdicar de um modelo
soberano de desenvolvimento.
Ninguém
deve realmente acreditar que a primeira opção irá ocorrer.
Em relação à segunda possibilidade, esperamos que os
governos de nossos países escutem as manifestações da
sociedade.
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Maria Luisa Mendonça é jornalista e membro da Rede Social de
Justiça e Direitos Humanos
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