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Nova
safra da cana, mais exploração
Maria
Luisa Mendonça
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
“Morte e Vida Severina”,
João Cabral de Melo Neto
Uma
nova safra da cana começa em Pernambuco. Nesta safra, a
produção de cana-de-açúcar deve ser 15% maior do que no
ano passado, segundo dados da Companhia Nacional de
Abastecimento (CONAB). Essa expansão deve-se principalmente
ao aumento da produção de etanol, que deve chegar a 21
bilhões de litros, enquanto em 2006 o Brasil produziu 17
bilhões de litros do produto.
No município de Aliança, Severino acorda às três da
manhã. Antes das cinco, já está cortando cana. É
trabalhador clandestino na usina São José. Já teve a
carteira assinada, mas depois de duas safras só consegue
trabalho por dia. Sua tarefa diária é cortar trinta
“braças”-o equivalente a setenta metros quadrados. O
feitor diz que isso soma três toneladas de cana, mas Severino
sabe que corta de sete a oito toneladas por dia.
Em terreno íngreme, ele sobe e desce a colina, entre as
fileiras de cana. Seus movimentos são precisos: primeiro se
abaixa para cortar rente ao chão e depois corta a folhagem em
cima. Em ritmo constante, só pára pra comer quando o sol
está alto. Já passa das onze horas. Na marmita ainda tem um
pouco de cuscuz. A comida pouca quase não faz “efeito”. E
Severino volta pro corte da cana. Sobe e desce ladeira, se
abaixa e levanta tantas vezes que nem sente mais o corpo. As
mãos nem se fala! O patrão não dá luva nem bota. O
salário não dá nem pro sabão de lavar a roupa encardida de
vinhoto e cinza da cana queimada.
Cinco da tarde, já quase anoitecendo, Severino volta pra
casa. Na janela seus sete meninos esperam. No fogo ainda tem
brasa, mas a panela está vazia. Severino recebeu $120 reais
na semana passada, o salário de duas semanas. Mas a feira só
deu pra seis dias. A outra metade do salário só vem na
próxima semana. Na casa de Severino tem duas cadeiras. Não
tem mesa nem cama. Quando não está chovendo, dá pra pegar
água no rio. Mas hoje não. Escorrega muito e é longe.
Severino deita no chão e espera por outros dias.
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Severina Maria mora no engenho Meia Légua há quarenta anos,
no município de Cortes, Mata Sul de Pernambuco. Chegou com
seu pai quando tinha oito anos. A gente chama essa região de
Zona da Mata, porque antes era tudo mata Atlântica. Agora as
usinas plantam cana até na beira dos rios. O riacho de Meia
Légua está coberto de cana.
O trabalho no canavial Severina conhece bem: semear, botar
adubo, veneno, limpar mato, cortar cana... Já fez de tudo um
pouco. Só parava de trabalhar quando sentia as dores do
parto, mas voltava logo depois de poucos dias de resguardo.
Nunca recebeu atestado quando estava grávida. Teve quatorze
filhos, mas hoje são dez.
Agora o engenho está falido, mas o Incra nunca veio fazer
inspeção. Severina não tem pra onde ir, tem medo de ser
despejada. O senhor de engenho não deixa plantar roça.
Claro! Se Severina tivesse um pedacinho de terra pra plantar
macaxeira, inhame, milho... nunca teria ido pro corte da cana.
Nem ela nem ninguém.
Depois de tantos anos de espera, Severina quase perdeu a
esperança. Sempre diz a seus filhos pra não deixar de
estudar, apesar de que mesmo quem sabe ler só encontra
trabalho na cana, e é só por cinco meses, na época da
safra. Não tem outro emprego na região. A gente passa fome.
Mas Severina está orgulhosa porque quer aprender a ler. Já
sabe escrever metade do nome e está aprendendo a outra
metade. Quarenta anos de trabalho no canavial e o que ganhou
foi doença. O sonho de Severina era ter uma máquina de
costura. Ela sabe costurar muito bem. Sempre fez as roupas dos
meninos à mão, com saco de estopa, como dava. Mas se tivesse
uma máquina de costura a vida poderia ser melhor.
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Maria Severina trabalhou nos canaviais quase toda a
vida. Como outras severinas, começou a trabalhar cedo,
com apenas doze anos. Um dia ela se acidentou, cortou a perna
e não tinha como ir pro hospital. O trabalho no canavial
causa doença nos pulmões por causa da queimada e do veneno.
Aos 41 anos, Severina ainda é forte, mas sabe que quem
trabalha na cana morre mais cedo.
É por isso que Severina nunca mais quer voltar pro corte da
cana. Depois de ser expulsa dos engenhos, se recusa a ir para
a favela. Hoje ela coordena um acampamento dos sem terra no
município de Palmares. Esse engenho está falido, como tantos
outros aqui em Pernambuco.
Mesmo na beira da estrada, a roça do acampamento tem de tudo:
macaxeira, milho, tomate, melancia. O feijão já foi colhido
e durou todo o inverno. O maior problema é alimentar os
bebês porque o preço do leite está pela hora da morte.
Futuro? Severina não vê futuro para ela, só pros filhos. É
por isso que luta pela terra.
O Incra não vem e a polícia já ameaçou dar despejo. Mas
Severina tem esperança. O que ela acha do acampamento?
Ótimo! Os barracos têm que ser bem limpos e organizados.
Aqui é bem melhor que morar na rua, porque um ajuda o outro.
E a gente não passa fome, porque no corte da cana, você
trabalha, trabalha, e não dá o que comer.
--- Maria Luisa Mendonça é jornalista e coordenadora da
Rede Social de Justiça e Direitos Humanos
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