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3. A vida nas agrovilas
Dona
Leandra de Jesus Ferreira nasceu no interior de Alcântara.
Tem 63 anos. Depois da mudança de Pepital para a agrovila
- com a chegada da Base Espacial, que deslocou famílias
de 30 povoados -, a vida dela e de toda a comunidade tem sido
muito sofrida. Isso porque não há emprego, nem
terra suficiente para tirarem os legumes. Trabalham muito
e colhem pouco. As terras não são produtivas.
Onde não tem alimento, o sofrimento é grande.
As promessas da Base de Alcântara eram para o pessoal
melhorar de vida, mas isso não aconteceu até
hoje. A única coisa que podia ser um melhoramento é
a casa que não é mais de taipa. Mas, com o passar
dos anos, dona Leandra e os outros moradores viram que isso
não foi bom. Não precisam trocar a palha de
4 em 4 anos, mas as madeiras das casas estão se quebrando
e os moradores têm medo de que elas desabem. Na outra
casa onde dona Leandra morava antes de se mudar para a agrovila,
o chão era de terra e de taipa. Mas não molhava
as cobertas quando chovia. Nessa de hoje a roupa fica toda
molhada. Quando chove é um desarranjo. As casas são
todas iguais nas agrovilas.
Para
plantar, é difícil. A terra para onde foi deslocado
o pessoal das agrovilas foi de 17 hectares ou menos. As terras
de uns já se esgotaram. Não dão mais
nada. A de outros nem deram nada porque só nascia tiririca,
aquele capim navalha. Não presta para roçar.
Eles agora estão roçando nos terrenos onde moravam
em Pepital. É de onde estão conseguindo tirar
alimentação para suas famílias. Mas dona
Leandra vai contando que não dá para se alimentar
como a pessoa precisa mesmo para viver.
Moram
na comunidade de dona Leandra 46 famílias.
Ela
sente muita saudade de Pepital. Sua família toda é
de lá. Tem saudade da juçara, que dava muito.
Lá era muito bom. Tinha o rio de água doce,
peixe, no brejo tinha buritizal, juçaral, mangueira,
muita mangueira nos quintais das casas - agora, banana é
coisa muito difícil; dona Leandra chega a ficar admirada
quando aparece banana por lá.
Hoje,
o antigo Pepital está sendo a roça dos que antes
moravam lá - eles plantam arroz, milho, mandioca, jerimum,
maxixe, quiabo, feijão. Para a Base, essa é
uma invasão. Para aqueles que moravam em Pepital essa
é uma volta para o lugar que era deles.
Quando
era criança, dona Leandra morava com sua avó.
A avó dela dizia: "Vai chegar um tempo, meus filhos,
em que vocês todos vão ser vendidos e vão
se mudar dessa terra onde vocês nasceram, vão
jogar vocês daqui. Nesse tempo, eu não vou estar
mais viva, mas vocês têm que ser fortes para não
sofrerem." As crianças ficavam pensando que a
avó estava caducando. Quando foi em 1981 começou
a ser feito o levantamento da área de Alcântara
para a construção da base. Dona Leandra então
pensava: "Será que a minha avó tinha razão?"
Dona
Leandra conta que essa mudança desmanchou muitos laços
de família, porque quem não se adaptou teve
que se mudar. Dona Leandra é conhecida na comunidade
como uma mulher valente. Em 1999, a Base queria tirar o restante
das famílias que ainda estão nos seus lugares
de origem. Foi a primeira luta na qual dona Leandra se envolveu.
Lutou para que isso não acontecesse. Depois, quando
a casa de farinha de onde moram caiu, ela e outros moradores
foram atrás de seus direitos. As casas não foram
reformadas, mas conseguiram a reforma do colégio, do
posto médico, da lavanderia e da casa de farinha. A
escola lá funciona só até a quarta série.
Há mais de um ano, quem paga as contas desses serviços
é a própria comunidade. A prefeitura não
paga mais.
Para
comerem peixe, eles têm que comprar. Pescam pouco porque
o rio fica muito longe, a uns cinco quilômetros dali.
Antes, onde moravam, podiam pescar, caçar, criavam
galinha. Era melhor. Por isso, dona Leandra diz que eles têm
medo que outras comunidades sejam deslocadas. Porque eles
não terão de quem comprar a comida, já
que a Base fica dona da praia. "Nós já
sofremos um bocado e ainda estamos sofrendo. Por isso, não
queremos que nossos companheiros que estão lá,
cada um em sua casa, na sua riqueza, com muita fartura de
alimentos, venham para cá sofrer."
4.
Os igarapés de Samucangaua
5.
Vizinhas
6.
De repente, uma explosão
7.
Principais problemas de Alcântara
8.
Como estão as comunidades hoje
9.
Titulação das terras
10.
A luta contra o controle da base de Alcântara
11.
É bom saber
12.
De volta às origens
13.
As comunidades reagem
14.
Futebol
15.
O artesanato de Santa Maria
16.
Sabor de Alcântara
17.
Filho de Alcântara
18.
Resumo histórico
19.
Perguntas para discussão
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