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Cartilha


14. Futebol

A bola rolou devagar, foi quase parando… e parou.

Os gritos da torcida ecoaram o palavrão que Toinho soltou, no mesmo instante em que soou o apito encerrando o jogo.

Já era hora mesmo, o sol baixando por trás da arquibancada anunciava que não tinha mais tempo pra virar o placar. E com isso o time saía no prejuízo, empatando a série, e deixando a final pra ser resolvida no próximo jogo.

Zezo passou ao lado de Tonhão e os dois foram se arrastando cansados para o vestiário.

- Até parece que nunca vai dar certo. Nem no tempo de seu Roxo houve domínio tão grande. E olha que naquele tempo só tinha um time…
- Aquele meia-esquerda de Canelatiua tava dizendo que é assim mesmo, que "ovo não briga com pedra".
- Que nada rapaz, isso é conversa de quem já nasceu derrotado. Na próxima vez a gente se prepara melhor e você vai ver como vamos acabar com o time deles.

Zezo baixou e puxou um capinzinho que foi parar no canto da boca, destrancando o pensamento:

- "Mas que é meio difícil é… Até o juiz é do time deles. E nem passou pelo curso de seu Naco Arouche… nem conhece nada de Alcântara."

Um chute desvirou um pedaço de jornal que o vento trouxe e mostrou a manchete: "98,7% dos votos apóiam os quilombolas de Alcântara no plebiscito".

Uma mordida no capim e Zezo pensou que viver na agrovila era que nem ser expulso de campo e ficar suspenso todo o campeonato, tendo que ficar no banco de reserva, castigado, sem nunca poder pisar no campo bendito.

Jogador bom quer entrar em campo. Quilombola quer viver na sua terra, que foi do pai, do avô, do bisavô, do lado da casa da família, podendo ir pescar, em lugar de ficar preso nesse areião…

- Rapaz, a gente tinha mesmo de ganhar mais união pra garantir nossa terra, não é mesmo, Toinho?
- Também acho. Tava lembrando que é que nem no tempo de antigamente quando vinha time de outra cidade e a gente ia pescar pra conseguir a comida… O campeonato acontecia porque o povo se unia.
- É isso aí, UNIÃO é que vai resolver nosso problema. Por isso que eu fico contente agora quando o vejo o povo todo se juntando pra ganhar o direito à nossa terra.
- Temos que fazer que nem quando o Padre Pop ajudou a gente a construir o campo do Forte São Sebastião. Unidos, nós podemos ganhar o campeonato e podemos ganhar nossas terras da base.

A estrela Dalva, lá em cima, parece que piscou abençoando a determinação do povo de Alcântara de ganhar o campeonato, a terra, a vida.

15. O artesanato de Santa Maria

16. Sabor de Alcântara

17. Filho de Alcântara

18. Resumo histórico

19. Perguntas para discussão