|
Em
setembro de 2004, o MST realizou um levantamento
demonstrando
que apenas 5.440 famílias de seus acampamentos tinham sido
assentadas desde o início do governo Lula. Dados da Ouvidoria
Agrária Nacional indicam que, de janeiro a agosto de 2004, o
número de ocupações de terra aumentou 47% em relação ao
mesmo período no ano passado, chegando a 271.
Violência
no Campo e Reforma Agrária
*Maria
Luisa Mendonça e **Roberto Rainha
Este
texto busca analisar a violência no campo e a reforma agrária
durante o período de 2003 e parte de 2004. Em 2003, os
principais fatos políticos relacionados com a reforma agrária
ocorreram a partir das expectativas geradas com o início do
governo Lula. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT):
“O ano de
2003 começou com a euforia da esperança que vence o medo. Os
trabalhadores e trabalhadoras do campo acreditaram que havia
chegado a hora de uma mudança profunda, que a Reforma Agrária
finalmente iria acontecer”.
Já
naquele momento, a CPT atribui o grande número de mobilizações
a essa expectativa. Em 2003, as ocupações e acampamentos
atingiram 676 ações, envolvendo 124.634 famílias ou cerca
de 623.170 pessoas. O número de pessoas que participaram de
manifestações foi estimado em 481.023. O total de conflitos
atingiu um patamar nunca visto: 1.690 conflitos, com cerca de
1.190.578 pessoas envolvidas.
Em
2003, o número de assassinatos de trabalhadores rurais
cresceu 69,8% em relação a 2002, chegando a 73. O número de
ordens de despejo também foi recorde em 2003, atingindo
35.297 famílias, envolvendo cerca de 176.485 pessoas, o que
representa um aumento de 263,2% em relação aos dados de
2002. O número de prisões também foi 140,5% maior do que em
2002.
Em
abril de 2004, o diagnóstico da CPT era de que
“as esperanças depositadas no governo Lula vão se
transformando em dúvidas, quando não em decepção. Ninguém
ignora as dificuldades imensas, as cercas e empecilhos
colocados pelas elites a esse governo. Se o governo federal
adotou uma nova postura diante dos movimentos do campo, não
os tratando como movimentos criminosos, fora da lei, como
vinha acontecendo nos últimos anos, também não realizou uma
verdadeira Reforma Agrária”. Segundo a CPT, o número de
famílias assentadas durante 2003 e 2004 foi “irrisório”.
Em
setembro de 2004, o MST realizou um levantamento demonstrando
que apenas 5.440 famílias de seus acampamentos tinham sido
assentadas desde o início do governo Lula. O governo afirma
ter assentado 70,1 mil famílias desde janeiro de 2003, mas
esses números são contestados por movimentos sociais. Segundo
o MST, em 2003 foram assentadas 14 mil famílias e, nos três
primeiros meses de 2004, apenas 7 mil famílias. A maioria
desses assentamentos não beneficiou famílias acampadas, pois
de concentrou em regularização de posses.
Mesmo
os dados do Incra (Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária) indicam que possivelmente o governo não
conseguirá cumprir sua meta de assentar 115 mil famílias em
2004. Em agosto, o governo afirmou ter assentado 33,3 mil famílias,
o que significa apenas 29% da meta. Em 2003, da meta anunciada
de 60 mil famílias, o governo só assentou 36,8 mil, segundo
dados oficiais.
Por
outro lado, dados da Ouvidoria Agrária Nacional indicam que,
de janeiro a agosto de 2004, o número de ocupações de terra
aumentou 47% em relação ao mesmo período no ano passado,
chegando a 271.
Assassinatos
em 2004
Dados
da CPT, de janeiro a agosto de 2004 indicam que foram
assassinados 20 trabalhadores rurais, sendo que 9 desses
crimes ocorreram no Pará, 3 em Pernambuco, 2 no Maranhão, 2
no Paraná, 2 no Piauí, 1 no Mato Grosso e 1 na Paraíba.
Assassinatos
2004
|
|
|
State
|
Municipality
|
Name
of the conflict
|
Name
of the Victim
|
Date
|
Category
|
Description
|
|
1
|
MA
|
Aldeias
Altas
|
Povoado
Jaburu
|
José
Borges da Silva, 67
|
21/1/04
|
Trab.
Rural
|
Assassinado com 67 facadas. No homicídio teve o
órgão genital decepado. Consta que o fazendeiro Matias
solta gado na plantação dos trabalhadores. Numa dessas
ações, José Borges reagiu, prendendo um garrote do
fazendeiro. Este jurou vingança.
|
|
2
|
MA
|
Nina
Rodrigues
|
Vila
Boa Esperança/PA Mangueira
|
Evaldo,
20
|
6/2/04
|
Assentado
|
Assassinado numa emboscada. O principal suspeito
do homicídio é João Pinto, aliado do fazendeiro
Francisco Gomes da Silva. Consta que este fazendeiro tem
interesse em adquirir parte da área do PA Mangueira, o
que tem gerado conflitos no Assentamento. A vítima era
ligada ao MST.
|
|
3
|
MT
|
Rosário
do
Oeste
|
Ass.
Marzagão
|
Joaquim
Rosa da Cruz,39
|
2/1/04
|
AsAssentadoo
|
A terra é da União, mas em 07/2003 o juiz
Clorisvaldo Rodrigues concedeu reintegração de posse
para o fazendeiro José Roberto Cerri. Desde então as
ameaças de morte no assentamento são constantes e o
conflito é eminente.
|
|
4
|
PA
|
N.
Reparti-
mento
|
Gleba
Capivara
|
Eudes
|
20/1/04
|
Sem-terra
|
Eudes trabalhava na Serraria Pontal Madeiras, em
Maracajá. O proprietário, Sr. Francisco, conhecido por
"Irmão", mandou matar Eudes para não pagar
pelo seu serviço na madeireira. Eudes estava acampado
na Gleba Capivara, no Km220 da Transamazônica.
|
|
5
|
PA
|
N.
Reparti-
mento
|
Gleba
Capivara
|
Gil
|
20/1/04
|
Sem-terra
|
Eudes e Gil
trabalhavam na mesma Serraria Pontal Madeiras, em
Maracajá. Gil foi morto pelo mesmo motivo que Eudes.
.
|
|
6
|
PA
|
Redenção
|
Faz.
Santa Eliza
|
Ezequiel
de Morais Nascimento
|
29/1/04
|
Liderança
|
Ezequiel era Presidente da
Assoc. dos Trab da Faz. Stª Eliza. A faz. é ocupada
há 8 anos por 30 fam. de peq. Agric. Há algum tempo
alguns grandes proprietários se infiltraram na área a
fim de grilar a terra, entre estes a Sra. Terezinha
Boeck. Por várias vezes, no início de 2003, Ezequiel
fez várias denúncias de violências sofridas pelos
trabalhadores, a mando destes grileiros e com o apoio da
polícia; por causa disso estava ameaçado de morte
|
|
7
|
PA
|
Rondon
do
Pará
|
Ligado
a vários conflitos
|
Ribamar
Francisco dos Santos
|
6/2/04
|
Pres. Sindicato
|
O presidente do STR de Rondon (PA), Ribamar
Francisco, tinha seu nome na lista dos "marcados
para morrer"; há semanas vinha recebendo ameaças
e apesar de ter denunciado, nada foi feito pela
polícia. Por esta razão a CONTAG propõe que crimes
relacionados na luta pela terra sejam investigados pela
PF e julgados pela Justiça Federal."O judiciário
não pode continuar sendo uma linha auxiliar do
latifúndio", alerta Manoel dos Santos, presidente
da CONTAG.
|
|
8
|
PA
|
Pacajá
|
Assentamento
Arapari I
|
José
Ribamar Ribeiro, 45
|
#####
|
Assentado
|
De acordo com os agentes da CPT Tucuruí-PA,
trata-se de um conflito pela terra, mas não foi
possível levantar informações.
|
|
9
|
PA
|
Tailândia
|
Ligado
a vários conflitos
|
Epitácio
Gomes da Silva
|
23/3/04
|
Liderança do MTRI
|
Há duas versões para o
crime, a polícia civil afirma que a causa do
assassinato foi latrocínio, mas os representantes de
movimentos de trab. rurais da região acreditam que foi
morte encomendada por fazendeiros e madeireiros. No fim
de 2003, Epitácio fundou junto com representantes de
alguns municípios o MTRI (Mov. dos Trab. Rurais
Independentes). O MTRI estava mobilizando trabalhadores,
organizando para começar a ocupar terras na região, o
que desagradou muitos latifundiários, madeireiros e
grileiros.
|
|
10
|
PA
|
N.
Reparti-
mento
|
Assentamento
Redenção
|
José
Antonio P. de Souza, 45
|
Mar/04
|
Assentado
|
Trata-se de um conflito na
divisa do P. A Redenção e a Gleba Capivara. Não
consta outras informações.
|
|
11
|
PA
|
N.
Reparti-
mento
|
Vicinal
4 Paracanã
|
Gaspar
|
3/5/04
|
Trab.Rural
|
O fazendeiro Alexandre
mandou matar Gaspar por dois motivos: para não pagar um
serviço de derruba, no valor de R$2500,00, e para
apossar-se do lote de Gaspar, uma vez que o imóvel fica
ao lado da fazenda. Gaspar morava sozinho, não tinha
família.
|
|
12
|
PA
|
Novo
Progresso
|
Gleba
Curuá
|
Adilson
Prestes,26
|
3/7/04
|
Agente
pastoral
|
Há dois anos Adilson
estava ameaçado de morte porque denunciou a grilagem
de terras, exploração ilegal de mogno na terra
do meio.
|
|
13
|
PR
|
Planaltina
do
Paraná
|
Faz.
Sta. Filomena
|
Elias
Gonçalves de Moura,20
|
28/8/04
|
Sem-terra
|
Assassinado com um tiro no
pescoço, num confronto entre o MST e os seguranças da
fazenda Sta. Filomena, em Planaltina, durante a
ocupação da área. O fazendeiro, Francisco Carvalho
Ramos aguarda posicionamento da justiça, e diz que já
entrou com pedido de reintegração de posse.
|
|
14
|
PB
|
Mari
|
Faz.
Olho D'Água
|
Antônio
Carlos da Silva,64
|
19/4/04
|
Posseiro
|
Antônio Carlos apoiava a
luta dos trabalhadores do MST pela desapropriação da
Faz. Olho D'Água. Foi morto por dois capangas quando
voltava para a faz. O advogado do MST, Dr. Rogério
Machado denuncia que há um grupo de
pistoleiros(milícia privada) agindo na região de Mari
e Sapé.
|
|
15
|
PR
|
Guairacá
|
Faz.
Sta. Filomena
|
Elias
Gonçalves Moura, 20
|
31/7/04
|
Sem-terra
|
Elias foi assassinado por
jagunços que abriram fogo contra 400 famílias, que
estavam acampadas próxi. à Fazenda Sta. Filomena.
Várias pessoas ficaram feridas. Os sem terra ocuparam a
fazenda após o conflito.
|
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16
|
PE
|
Catende
|
Tabaiaré/
Usina
Catende
|
Eraldo
José
da
Silva
|
18/3/04
|
Liderança
|
Eraldo José da Silva era
presidente da Assoc.de Moradores de Tabaiaré, da Usina
Catende.Em 2003, tinha coordenado a ocupação da Usina.
Logo após começou a receber ameaças de morte e sofreu
tentativa de assassinato quando vários tiros foram
disparados contra o seu carro. O MST acusa o
administrador da Usina, que já teria ameaçado Eraldo.
|
|
17
|
PE
|
Moreno
|
Assentamento
Herbert de Souza
|
José
Rosendo da Silva
|
21/3/04
|
Liderança
|
José Rosendo, líder do
Assentamento Herbert de Souza, foi morto com três tiros
pelas costas. Ele vinha tendo desentendimentos com
madeireiros da região, que estavam derrubando árvores
da reserva do assentamento, que é coordenado pela OLC
(Org. da Luta no Campo).
|
|
18
|
PE
|
Amaraji
|
Engenho
Retalhos
|
Rivaldo
José
da
Silva, 24
|
30/5/04
|
Sem-terra
|
Rivaldo foi assassinado numa emboscada, próx. de
onde morava no Engenho Retalhos, que está em processo
de desapropriação. O proprietário do Engenho está em
conflito com as 11 famílias acampadas no local.
|
|
19
|
PI
|
Joaquim
Pires
|
Fazenda
Papagaio
|
Maria
Betânia,34
|
29/7/04
|
Posseira
|
Maria Betânia e Manoel de Jesus foram
assassinados por dois pistoleiros não identificados.
Lideravam 40 famílias de posseiros que lutavam pela
desapropriação da Faz. Papagaio. Atualmente reagiam
contra a venda do imóvel
para um grupo de empresários gaúchos, interessados no
plantio de soja para exportação.
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|
20
|
PI
|
| |